Jesus, O Esquerdopata
Quando eu fazia parte de uma igreja evangélica, o discurso sobre o amor incondicional de Deus para com os homens, manifesto na pessoa de Jesus, era para mim um fascínio e mistério. Como pode haver um amor manifesto sem ressalvas? O que parecia algo antinatural, como um cervo que ama o leão, fascinava-me pela ideia totalmente impossível da prática disso. Amar o seu inimigo genuinamente é tão impossível que somente um ser divino poderia fazê-lo. No entanto, Jesus não era somente um ser divino, e "somente" é algo bastante irônico se você pensar. A leitura dos evangelhos nos ensinava que Jesus era, também, totalmente humano. Como pode alguém totalmente humano, sujeito ao sangue e ao corpo, amar o seu inimigo genuinamente? Aparentemente, o cristianismo que eu conheci era composto de paradoxos: amar o seu inimigo, perdoar a quem te ofende, dar a outra face. Em síntese, ser um tolo.
Quanto mais eu me envolvia com as práticas religiosas, mais eu notava que a igreja evangélica, de certa forma, sentia-se incomodada com esse paradoxo. Buscava esconder, às vezes de forma nem tão sutil, que a natureza humana do Cristo era completa, e que estava sujeito às pressões que sofremos, sem ressalvas. Estava sujeito à libido, à raiva, à preguiça, à impaciência, ao medo, à angústia, escolha qualquer sentimento e indisposição que passamos diariamente. O quanto isso é incompatível com o discurso triunfalista das igrejas neopentecostais era um espinho na carne de muitos tele evangelistas. Para estes, Jesus estava mais próximo do anjo vingador do que necessariamente um carpinteiro que não tinha onde reclinar a cabeça. Se você rodear pelo Youtube, encontrará os sermões enfatizando mais um Cristo de glória e poder, que irá julgar a todos no último dia, do que o incômodo Jesus que acolhia os excluídos socialmente.
É verdade que esse tipo de discurso não encontrou repouso nas igrejas sem motivo. A grande maioria dos que chegavam a uma igreja evangélica eram pessoas pobres, humilhadas cotidianamente pelo mundo do trabalho, egressos de uma vida de pouco prestígio, que encontravam na comunhão com os crentes uma família e uma forma de respeito social. O discurso evangélico em voga tinha, com muita razão, um objetivo de levantar a auto estima desse povo que trabalhava muito e ganhava pouco, cuja única esperança de vida farta estava na eternidade. Não foi por acaso que nos anos do PT, quando o poder de consumo da população triplicou, a chamada teologia da prosperidade dominou as igrejas, pois o aumento de renda da população era entendido como reflexo da graça de Deus e não resultado de políticas sociais efetivas de transferência de renda. Foi no mesmo período que os programas religiosos tomaram a Tv aberta, Silas Malafaia começou a aparecer em tudo quanto é programa de entrevistas, dando voz ao discurso conservador, e o Partido Social Cristão elegeu, em 2008, 26 prefeitos e 739 vereadores, e, em 2010, 17 de deputados federais e 26 de estaduais, Marco Feliciano entre eles. Também em 2008, estreia na rede Bandeirantes um programa liderado pelo jornalista Marcelo Tas, o Custe o Que Custar, cuja proposta era fazer jornalismo com humor. A ideia de encurralar deputados pelos corredores e expor a idiotice da classe política era uma ideia promissora se isso não tivesse se traduzido em uma negação da política. O fruto mais evidente desse teatro foi Jair Bolsonaro. Foi a partir do CQC que o deputado, tantas vezes ridicularizado no programa (e que hoje, curiosamente, tem senão o apoio pelo menos a simpatia de alguns ex-membros, como Danilo Gentili), que a alcunha, originalmente irônica, de mito começou a pegar pelas suas declarações estapafúrdias. Paralelo a isso, em 2010, Marina Silva carregava as intenções de voto da maioria dos evangélicos pela sua afiliação à Assembleia de Deus, já que a estrela de cinco pontas do PT sempre assustou os crentes. Em um plot twist, Silas Malafaia, que já era uma liderança evangélica e tinha um programa de sucesso na rede Bandeirantes nos finais de semana, retira seu apoio a Marina Silva para apoiar José Serra. A sua desculpa era de que Marina Silva estava “jogando para a torcida” questões, para o pastor, muito importantes como aborto e casamento gay ao falar em referendos e plebiscitos. Os evangélicos já estavam muito envolvidos com a posição de Silas ao fazer alardes na TV aberta sobre a “ditadura gay” e “ditadura das minorias”, despertando os medos mais profundos de uma população com pouco acesso a discussões sociais, além de dar voz aos anseios de gente que sempre foi preconceituosa e não tinha vergonha disso. Quem pegou carona nesse discurso e estava toda segunda feira em horário nobre “mitando”? Jair Bolsonaro. Na confluência de interesses e manipulação do medo foi que a direita ultraconservadora cooptou os votos evangélicos e resultou no cenário que temos hoje. Agora, a igreja evangélica não tem mais vergonha do lado humano de Cristo, pois ele sequer aparece. Abdicou disso em nome da segurança de enfrentar um mal maior: os esquerdopatas, homessexuais, feministas, comunistas e gente que defende bandido.
Bem, foi mais ou menos nessa época que eu comecei a me decepcionar profundamente com o movimento evangélico. Entre outras razões, não me parecia razoável que o movimento protestante buscasse, acima de qualquer coisa, um projeto de poder em detrimento de um projeto social nas comunidades que estava inserido. Isto é, as intenções das lideranças de ocupar um cargo público, manipulando tudo quanto é tipo de discurso, no lugar de darem prosseguimento com a prática tradicional de transformar as vidas das pessoas que chegavam às igrejas, com acolhimento fraternal, tinha mais urgência do que qualquer outra coisa. Era como se eu descobrisse que o Jesus que me encantava na adolescência estivesse se tornando outra pessoa. Não era mais o Jesus que impedia a execução de uma prostituta, por exemplo, ato totalmente legal na época, diga-se de passagem. O Jesus do Silas Malafaia era mesquinho e se importava muito com sua contribuição. Não era como o Jesus que repreendeu os discípulos ao olharem torto para uma velhinha que não tinha com que contribuir para a causa, e deu umas moedinhas. O Jesus de Silas Malafaia recompensava os melhores com riqueza. Não era como o Jesus que eu conhecia que dizia que era mais fácil um camelo passar no buraco da agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Aos poucos, percebi que o amor incondicional do Deus da graça, que concedia aos seus filhos favor imerecido, se transformara no Deus do depósito bancário, da condenação e da vigilância. O amor incondicional agora tinha condição: ser um cidadão de bem. O discurso que eu ouvia quando cheguei à igreja era que Jesus era capaz de perdoar a qualquer um, não importava seu passado. Hoje, parece que Jesus está do lado da incompreensão, de quem oprime e quer ter o direito de oprimir.
Para não fugir do discurso de glória e triunfal, no evangelho de Mateus, capítulo 25, Jesus narra um cenário do dia do juízo, em que as pessoas serão julgadas pelo que fizeram. Está escrito:
"
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;
Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;
Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes."
(Mateus 25:34-40)
Ao que parece, o critério de Jesus não é outro senão o da justiça social. Pão a quem tem fome. Água a quem tem sede. Acolhimento ao refugiado. Roupa a quem está nu. Cuidado ao doente. Isto só me faz pensar que Jesus, nos dias de hoje, seria chamado pela igreja de nada mais que um esquerdopata. Não consigo, em hipótese alguma, pensar em Jesus subindo a trilha, para fazer o seu famoso Sermão da Montanha, e proferir: “Bem aventurado são os torturadores, por que eles tem sede e fome de justiça.” Pelo que me lembro, a regra era: “Bem aventurados os misericordiosos, por que eles alcançarão misericórdia.”
Fico com o Jesus da justiça social, do amor fraternal, dos pobres e da misericórdia. É por isso que não voto no Bolsonaro. Renan Duarte
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